Quando a ressaca bota a gente pra pensar

Quando a ressaca bota a gente pra pensar.
“Eu nunca mais vou beber”. Quem aqui nunca repetiu essa frase alguma (trocentas) vez na vida? Para no final de semana seguinte estar lá, sem vergonha, tomando umas de novo? Mas tem também o caso daquelas esbórnias épicas que depois você não consegue nem ouvir o nome de determinada bebida pro resto da vida que o estômago já dá aquela revirada. E é disso que vou falar.
Nesses últimos tempos a timeline de todo mundo foi inundada pelo tema violência sexual. O estopim foi o estupro coletivo de uma adolescente por 33 homens. Este era um assunto que já estava na agulha há tempos e foi preciso um caso chocante – que eu não nem preciso repetir aqui – para a internet explodir em indignação, seguida de discórdia, passando pelo bafafá, chegando ao grande debate sobre a cultura do estupro.
Não vou me aprofundar no tema, nessa taça aqui só cabe o som, mas é interessante como as pessoas levantaram a bola sobre como as letras das músicas que ouvimos são misóginas e promovem a violência contra a mulher.
E não, não estou falando (só) de funk. Já li de um tudo: o pessoal apontando para a aparentemente inofensiva “Run for your life” dos Beatles, chamando atenção para a óbvia “I used to love her” dos Guns ‘n’ Roses (plmdds, não me venham com aquela história de que HER é o nome da cachorra do Axl) e posts comentando a tendência ao machismo de certas vertentes do metal.
Mas meus dois cents sobre o assunto é sobre a música U.O.E.N.O., do rapper Rocko, em que em um trecho da música SIMPLESMENTE é dito:
“Put Molly all in her champagne, she ain’t even know it
I took her home and I enjoyed that, she ain’t even know it”
Molly. Aquela droga. MDMA. Uma espécie de ecstasy.

Todo mundo aqui é crescidinha e sabe que tem que ficar esperta com o seu copo, mas uma música falando ABERTAMENTE sobre “nossa, que massa, vamos drogar a moça sem ela perceber, levá-la pra casa e tirar proveito disso”, não é lá a coisa mais agradável do mundo de se ouvir e dançar quando você é a garota na pista.
O trecho rendeu uma petição com 72 mil assinaturas pedindo para que a Reebok deixasse de patrocinar o rapper (o que deu certo) alegando que a música fazia referência aos “date rapes”. E Rocko, apesar de falar que “não, magina, onde já se viu, isso foi um mal-entendido, vocês interpretaram errado”, retirou o trecho da música para que ela pudesse ser tocada nas rádios, e depois desculpou-se publicamente.
Mesmo assim, a faixa possui no canal oficial do Youtube do rapper mais de 1.2 milhões de views, uma versão remix com mais de 13 milhões de views, quase 25 milhões de plays no Spotify e 0.7 milhões de visualizações no Shaazam.
O estupro não é uma questão de sexo, é uma questão de violência, poder. E ele existe bem antes do rock, funk, rap, hip-hop, punk, samba, metal. Mas na cultura, ele se encontra tão enraizado, que permite que letras assim (e outras bem piores) passem batidas ou sejam consideradas aceitáveis.
E eu pergunto, você, mulher, consegue ouvir uma música que promova violência sexual sem ficar com o estômago eternamente enjoado? Eu também não.
Ilustração da imagem destacada: Raquel Thomé (raquelthome.com)

Cosmopolitan, o drink da Madonna

Cosmopolitan, o drink da Madonna
Ok, pulando o problema de limitação de quem pensa que ~drinks são coisa de garotas, e cervejas são coisa pra macho~ (sério, não vou gastar meus caracteres e minha pouca paciência em discussão de gênero, bebida, machismo e paladar a essa altura da vida), gostaria de discorrer hoje sobre o papel fundamental feminino por trás do Cosmopolitan.
E não, não estou falando nos níveis de consumo 🙂
Primeiro a criação: há uma disputa louca sobre quem leva o título na criação da charmosa bebida. Da Massachusetts dos anos 70 a relatos de 68, até os anos 90, muita gente reclama o título. Chegou a ser encontrada uma receita muito parecida datada até dos anos 30. Mas segundo o Museu Americano do Coquetel (quem sou eu pra discutir), quem criou a bebida foi a bartender Cheryl Cook, que vivia recebendo mulheres pedindo seus drinks em taças de martini, só que sem o martini (não julgo). Foi aí que surgiu a ideia a criar um drink mais debouas.

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A receita foi se espalhando pelos bares de NY até que um dia após Madonna ser fotografada e assumir publicamente com todas as letras que era fã da bebida, o drink entrou: na moda, em todas cartas de drinks, em temporadas de seriados e nas graças de todo mundo.
E a relação dos dois perdurou todos estes anos de carreira. Recentemente, em um show na Austrália, a cantora, estava em um momento ~seu~, homenageando emocionada o filho que acabara de sair de casa para morar com o pai, e pediu que lhe trouxessem um cosmo ao palco. (Bitch, I’m Madonna)
Relevando a armadilha da taça que quando cheia é um convite ao desastre, o drink creditado à uma mulher, endossado por uma das maiores cantoras de sei lá quantas gerações, e feito um sucesso absurdo em uma série de quatro mulheres, ainda quebra um estereotipo feminino fazendo questão de ser cítrico.
Sendo assim, para celebrar a bebida, agradecer a Madonna, e nos dar uma desculpa para tomarmos uns dois ou três drinks, preparei essa playlist especialmente para este post, de 1h de duração somente com sucessos da cantora, para dançar sem derrubar uma gota do drink. Valendo (clique aqui)!
Ilustração da imagem destacada: Raquel Thomé (raquelthome.com)

Whiskey na jarra para o mês de São Patrício

Whiskey na jarra para o mês de São Patrício. Ok, vamos ignorar que dia isso irá ao ar. Vamos deixar pro final também quem sou eu, temos outras prioridades aqui. E elas não têm nada a ver com chopp verde, ou usar aqueles apetrechos em pubs no dia do santo.

Não vou desfiar a história de St Patricks, primeiro porque vocês devem saber melhor que eu, segundo porque não é bem o que importa aqui (atente para o nome da coluna).

Muito provavelmente você gosta da música Whiskey in the Jar por causa daquela versão do Metallica. A banda ganhou um Grammy com o som em 2000 e essa foi a música mais pedida ou de destaque, algo assim, daquela turnê em que os fãs escolhiam o setlist no Brasil. Insisto que muita gente tem um apego imenso à essa música por causa do clipe, um respiro para qualquer adolescente minimamente rebelde, em tempos da já tão pop e colorida MTV.

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Mas esquece isso tudo.

Whiskey in the Jar não é da autoria do Metallica. Na verdade nem é música de ~rock~ nem tinha que tá aqui. Essa é uma tradicional e conhecida música do folclore Irlandês (tem até dancinha tradicional) que foi gravada, e ~performada~ pela primeira vez, pela banda de folk The Dubliners.

Mas quem foi que pegou a música e tacou o (pode falar palavrão aqui, editora?), foi o Thin Lizzy, primeira banda de rock Irlandesa (não foi dessa vez, U2 <3), em que, durante uma brincadeira de estúdio, resolveu gravar a cantiga clássica, e acabou tornando seu primeiro hit internacional.

Daí pra frente foi o demônio: de banda de celtic rock britânico do começo dos anos 80, ao Belle & Sebastian (!), ficou liberado todo mundo gravar uma versão desse som.

Mas meu ponto é: no mês de San Patrick’s, não vou me meter no drink, mas o som mais Irish de se ouvir é aquela música do Metallica, que não é do Metallica, e pelamordedeus, na versão do Thin Lizzy. Que, liderada por Phil Lynott filho de um afro-brasileiro, e uma irlandesa de família tradicional católica, foi nos anos 70 a primeira banda rocker da Irlanda alcançar sucesso mundial com os clássicos Whiskey in The Jar, The Rocker, Jailbreaker e The Boys Are Back in Town.