Coluna da Pri – 5 sugestões de presentes para os apaixonados por cerveja!

O fim do ano está aí e com ele vem uma infinidade de motivos para presentear. Desde o tão “divertido” amigo oculto (do trabalho, da família, da faculdade, do grupo do Whatsapp…) até a troca de presentes do Natal. É um corre corre sem fim para não esquecer de ninguém e pensando nisso montamos 5 dicas de presentes bem abrangentes e dos mais variados valores, para presentear aqueles seus amigos ou amigas apaixonados por cerveja!

1 – Livros:
Livros são e sempre serão bons presentes. Você consegue facilmente encontrar uma boa seleção de livros que vão desde temas mais abrangentes (Larousse da Cerveja, Cervejas, Brejas e Birras) até livros com temas mais específicos, como harmonização (A Mesa do Mestre Cervejeiro). Há também temas mais divertidos que podem ser presenteados para os amigos que estão começando e os que já estão mais envolvidos (Filosofia de Botequim, Brasil Beer: O Guia das Cervejas Brasileiras, Cervejas Premiadas Brasileiras). Todas as indicações são de livros em português.

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2 – Cursos:
Sabe aquele seu amigo(a) que vive dizendo que quer aprender mais sobre cerveja ou quer botar a mão na massa e começar a produzir em casa? Existe uma grande variedade de cursos que vão de R$350 a R$7.500! Para os que estão na capital paulista tem opções de cursos de produção de nível básico, intermediário e avançado (Sinnatrah Cervejaria Escola) ou cursos de introdução ao universo da cerveja (Academia Barbante, Cervejoteca, Instituto da Cerveja, Sinnatrah). Consulte a agenda das escolas, além de cursos de introdução a cultura cervejeira e produção, existe uma boa variedade de temas para aprender um pouco mais sobre a bebida alcoólica mais consumida no mundo!

3 – Cervejas (claro!):
Claro que não poderia faltar cerveja no presente. Uma boa ideia é comprar kits que geralmente vêm com cervejas e copos, há uma infinidade de opções. Existem os kits que já vêm prontos, mas você pode escolher montar seu próprio kit. Se você quer ser mais ousado pode comprar um growler (cheio claro!) e quem sabe ajudar seu amigo(a) a fazer a difícil tarefa de esvaziá-lo! (em SP: EAP, Cervejaria Nacional, YesBeer, Cervejoteca, Mestre-Cervejeiro…).

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4 – Assinaturas:
Se você quer ser lembrado(a) durante todo o ano, que tal uma assinatura de um clube de cerveja? Os sites geralmente oferecem diferentes opções de assinatura (trimestral, semestral, anual). Geralmente funciona assim: você faz a assinatura online e recebe uma caixa com cervejas escolhidas por sommeliers na sua casa. É também um excelente presente para você dar a si mesmo! Existem boas opções entre os clubes de assinatura, verifique se a entrega é feita na sua região e se as opções de enviadas anteriormente te agradam (WBeer, CluBeer, The Beer Planet). Ainda no quesito assinatura você pode optar por assinatura de revistas focadas no tema cerveja (Revista da Cerveja)!

5 – Roupas, acessórios e outros:
Se você está interessado em montar um kit super personalizado, nada melhor que escolher cada item a dedo. Além de poder incluir todos os itens acima você também pode adicionar camisetas, bonés, abridores, copos, baldes, bandeiras, acessórios para celulares, beer toy, adesivos e até colares (sim, bijuterias “cervejeiras”). São incontáveis opções. Dê uma olhada nesses sites e encontre coisas que você nem sabia que existia (BeerTone, BeerFreaks, Folk Ink Label, Mestre-Cervejeiro, Meu Copo)!

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Fiquem ligados nas promoções que cada site está oferecendo de fim de ano. Se você gostou das indicações e quer um mimo extra insira o código MENINASNOBOTECO para ganhar um brinde exclusivo ao assinar o CluBeer e o código xmashop na loja BeerTone para ganhar 10% de desconto até dia 31/12/15.

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Priscilla Colares

Sommelière e Mestre em Estilos de Cerveja

www.pricolares.com.br – Insta @pricolares

Coluna da Pri – 6 Mentiras que os Homens Contam sobre Mulheres e Cerveja

[Nota da tradutora: Muito se tem discutido sobre mulher e cerveja e, garanto que ainda há bastante o que se conversar sobre essa insistência que muitas pessoas têm em classificar bebidas de acordo com gênero. A ideia de traduzir o texto foi engrossar o coro de mulheres que estão de saco cheio dessas atitudes machistas e dar oportunidade a mais pessoas de conhecer o desabafo de Ashley Routson, uma moça de cabelos a la arco-íris, escritora, gerente de marketing da Green Flash Brewery e idealizadora da comemoração do IPA Day]

Por Ashley Routson (tradução livre Priscilla Colares)

Homens, eu tenho uma reclamação a fazer. Eu estou de saco cheio de artigos escritos por vocês (homens), direcionados para outros (homens), discutindo como fazer com que mulheres bebam cerveja. Estes artigos são condescendentes e ofensivos? Claro que sim! Mas também, eles estão quase sempre errados.

A verdade é que os homens não são os únicos culpados de escrever artigos equivocados sobre como fazer com que as mulheres bebam cerveja – alguns desses artigos têm sido escritos por mulheres que têm pouco ou nenhum conhecimento sobre cerveja. E francamente, não sei qual é o pior: homens fingirem que realmente entendem as mulheres, ou mulheres que não sabem a diferença entre uma Bock e um Black & Tan escrevendo colunas de conselhos cervejeiros. Ambos cenários são horríveis. E ambos me fazem continuar a dar tiradas super-feministas cheias dos meus palavrões mais favoritos nas mídias sociais. Não é exatamente uma forma de construir minha reputação…

Existem inúmeros equívocos sobre cerveja que precisam ser abordados e corrigidos. E como membro do clube da va-jay-jay além de alguém que vende e escreve sobre cerveja para viver, meu ego acredita que eu sou a pessoa perfeita para abordar as falácias e argumentos mais comuns sobre “como fazer sua mulher beber cerveja”. Aqui vamos nós:

Mentira #1: Cerveja é bebida de macho

A verdade: amigos… foram as mulheres inventaram a cerveja, então se liga!

As mulheres não só inventaram a bebida mais fina do planeta, por um muito tempo elas também eram as únicas autorizadas a produzi-la. Os Sumérios, também conhecidos como as pessoas que perceberam que a cerveja era algo importante, e excelente, usavam a cerveja para o culto da deusa Ninkasi: a deusa da produção cervejeira e da cerveja. E a propósito, deusa subentende-se vagina.

Mentira #2: As mulheres têm medo de cerveja

A verdade: Não somos nós; (provavelmente) é você.

Sim, eu estou falando com você Sr. Nerd Cervejeiro que passa seus dias e noites à procura de fotos de cerveja no Instagram para criticar. Você que desesperadamente busca todas as oportunidades para desmerecer e agredir a nós – que somos como líderes de torcida apaixonadas pela cerveja artesanal – simplesmente porque você não recebeu amor suficiente quando era criança. Não é nossa culpa se nascemos com peitos e conseguimos mais curtidas em um beer selfie que você irá em centenas de fotos ao longo do ano – independentemente de quantas fotos de cervejas raras você postar.

Vamos encarar os fatos: (homens) fanáticos com cervejas não são exatamente conhecidos por ter fortes habilidades sociais e uma aparência arrojada.

Os nerds que estou me referindo são aqueles que acabam com a graça de beber cerveja. Eles tendem a ser super competitivos, fortemente críticos e pretensiosos. Esses são aqueles caras que ficam desconfortáveis perto de você num bar mas, esperam ansiosamente para que você peça uma cerveja só para te menosprezar por fazer uma escolha tão ignorante. Ou ir pela tangente sobre todas as cervejas raras e incríveis que eles já beberam e que você nunca, nunca será capaz de provar, porque você não é tão legal quanto eles.

Eu não estou – de jeito nenhum – dizendo que as mulheres são superficiais, mas gostaria de propor uma possibilidade. Talvez não seja realmente o o líquido que nos afasta de beber cerveja. Talvez seja você.

Mentira #3: Todas as mulheres estão de dieta, e é por isso que nós não bebemos cerveja.

A verdade: Algumas de nós não se detesta!

Claro, algumas garotas podem ter um medo irracional de cerveja, porque elas acham que a cerveja vai deixá-las gordas. E… hummmm, eu me pergunto de quem é a culpa por tudo isso? (Sim, estou olhando para você, homem cervejeiro barrigudo).

Pode ser chocante mas, nem todas nós nos pesamos três vezes ao dia e muito menos contamos calorias como forma de vida. Algumas de nós verdadeiramente não se importam com alguns quilinhos a mais na cintura, quadril e coxas. Algumas de nós realmente (realmente) amam pizza, asinhas de frango e hambúrgueres e a vida. E adivinhem? Nós gostamos de beber cerveja sim, cerveja de verdade, acompanhando nossa pizza, asinhas de frango e hambúrgueres.

Ah, e enquanto estamos no assunto “calorias e cerveja”, tudo o que você realmente precisa saber é que o conteúdo calórico de uma cerveja está relacionado diretamente com seu teor alcoólico. Quanto mais açúcar você adicionar mais alcoólica é a bebida e por tanto mais calórica. Moral da história? Se você está contando calorias, escolha cervejas com baixo teor alcoólico.

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Mentira #4: As mulheres adoram porcarias doces e frutadas então você deve iniciá-las com cervejas também doces e frutadas.

A verdade: Fruit Beers são péssimas “cervejas para se começar a beber”, portanto isso não faz sentido.

Eu não sei desde quando ou onde inventaram este estereótipo de que mulheres só bebem cervejas de frutas ou de trigo mas, infelizmente eu entendo o processo de pensamento por trás disso. Obviamente as mulheres são o sexo frágil, e portanto têm paladar delicado que não suporta nada demasiadamente forte ou então corre o risco de derreter. Além disso, nós amamos, com todo amor, porcarias frutadas e doces. CERTO?!?!

Não me interpretem mal, eu adoro uma cerveja do estilo Fruit Beer. Mas chamar uma cerveja dessas de porta de entrada para o universo da cerveja é como chamar um Martini de maçã um cocktail para se começar a beber cocktails. Ambos são essencialmente uma porta de entrada pra nada. Não dá pra ir de um Shandy de morango doce e frutado para uma Double IPA super amarga, assim como não dá para ir de um repugnantemente e doce Cosmopolitan para um Manhattan.

Se você quer que sua namorada comece a beber cerveja de uma forma correta, essa cerveja para iniciante, deve ser uma representação equilibrada dos quatro ingredientes principais na cerveja, malte (normalmente na forma de malte de cevada), lúpulo, água e fermento?? Se você der a uma mulher uma cerveja de frutas, ela não tem para onde ir depois disso. Se você a der uma Pale Ale ou uma Dry Stout, o céu cervejeiro será o limite.

Mentira #5: As mulheres não suportam amargor

A verdade: Você é estúpido

Espero que nenhum de vocês tenha crescido acreditando nas besteiras da história A Princesa e a Ervilha. A maioria das mulheres não aspira ser frágil e fraca. Algumas de nós somos até um pouco masoquistas. Algumas de nós gostamos de ter o nosso paladar atacado pelos sabores robustos derivados do lúpulo.

Ter uma vagina não tem nada a ver com a capacidade de tolerar, gostar, ou amar coisas mais amargas. Amargor, na maior parte das vezes, é um gosto adquirido – para homens e mulheres. Café, chá, chocolate amargo, vinho tinto, couve, brócolis, azeitonas – são todos alimentos amargos e, que a maioria das mulheres adoram. E se podemos lidar com café e couve, tenho certeza de que podemos lidar com sabores similares ao café dos maltes torrados e sabores resinados como os do lúpulo. Obrigada, muito obrigada.

Mentira #6: Você pode subornar uma garota a beber cerveja

A verdade: Nem todas nós assistimos novelas e seu relacionamento soa realmente manipulador.

Recentemente li um artigo, escrito por um cara, que abordou o assunto de como fazer com que mulheres bebessem cerveja e ele recomendou nos subornar com coisas como compras, viagens e jóias. Isso provavelmente é uma das coisas mais ofensivas que já li. Não posso falar por todas as mulheres mas, eu odeio ir às compras e eu perdi todas jóias lindas que já me deram.

O problema aqui não é que sua namorada não bebe cerveja. O verdadeiro problema é essa coisa toda de subornar. Cerveja é divertida por conta própria, e se você precisar subornar a sua cara-metade para fazer algo divertido, você deveria reavaliar sua relação.

Moral da história: você não precisa fazer a cerveja ficar idiota para que nós possamos entendê-la. Manda um papo reto… As mulheres são muito inteligentes e muito impressionantes. Então pare de nos tratar como crianças mimadas de 5 anos que precisam ser subornadas com doces para comer os legumes.

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Ashley Routson, também conhecida como “The Beer Wench” é um evangelizadora de cervejas artesanais, autora do livro “The Beer Wench Guide to Beer”, e gerente distrital da cervejaria Green Flash Brewing.

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Priscilla Colares

Sommelière e Mestre em Estilos de Cerveja

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Entenda melhor os rótulos de cerveja – Parte 2

Na coluna passada falamos sobre como entender melhor os rótulos de cerveja. Agora vamos para a parte um pouco mais complexa: os estilos!

Os estilos de cerveja servem como guia para identificar um conjunto de características da bebida, de uma forma geral servem como um senso comum sobre atributos sensoriais (sabor, aroma, textura) e atributos mais objetivos (cor, teor alcoólico, teor de amargor). Também facilitam o entendimento do consumidor e orientam os concursos de cerveja.

Como já são quase 8.000 anos de história da cerveja muitos fatores contribuíram com o surgimento de diferentes estilos de cerveja, como disponibilidade de matéria prima, questões geográficas, datas comemorativas, religião, tecnologia, etc. Hoje já são mais de 200 estilos diferentes já catalogados e podem ser consultados através de guias. Os mais utilizados no Brasil são o Brewers Association e o BJCP – Beer Judge Certification Program.

Aqui vamos comentar alguns estilos que são fáceis de encontrar na prateleira de qualquer empório, supermercado, bar ou restaurante que possui uma boa carta de cerveja:

Pilsen: muito dos rótulos que existem por aí estão longe de ser uma verdadeira Pilsen. Criado em 1842 na cidade de Pîls onde hoje é a Republica Tcheca. Uma boa Pilsen deve conter além das características delicadas do malte (aromas de pão e biscoito) também deve conter um certo amargor para o equilíbrio da receita. As Bohemian Pilsen possuem aromas típicos do lúpulo Saaz (terroso e picante), já as German Pilsen são mais maltadas e amargas. Prove a tradicionalíssima Pilsen Urquel ou compare com a Pilsen da sua cervejaria mais próxima. Quando em Belo Horizonte experimente a nova Bohemia Pilsen da cervejaria Backer.

Weiss (trigo em alemão): as Weizen/Weissbier/Hefeweizen são cervejas de trigo produzidas com um mínimo de 50% de malte trigo (tecnicamente é impossível produzir uma cerveja 100% de trigo) e em geral é o primeiro estilo de cerveja “diferente” que bebemos. Refrescante, muito carbonatada e encorpada essa cerveja possui características de aroma e sabor bem nítidas: banana e cravo. Estas características são produzidas pela levedura no processo de fermentação e não há adição destes elementos na cerveja. A levedura que fica no fundo da garrafa deve ser servida como parte da experiência (para aqueles que não gostam experimente a versão filtrada Kristal Weizen). Experimente a tradicional alemã Erdinger, uma das primeiras cervejas importadas a vir para o Brasil. A grande maioria das cervejarias artesanais brasileiras possui em seu portfólio uma cerveja de trigo, seguramente não irão faltam versões locais. Quando em São Paulo experimente a Karavelle Weiss, campeã este ano no festival Brasileiro de Blumenau na categoria Weissbier.

Witbier: estilo de origem belga produzido com trigo não malteado e malte de cevada. Essas cervejas são temperadas com semente de coentro e casca de laranja, em geral, mas, algumas outras receitas utilizam um pot-pourri de especiarias e cascas de outras frutas cítricas. Wit que em flamenco significa branco traduz a cor da cerveja que é amarelo bem claro e sua alta turbidez. Cervejas deste estilo são extremamente refrescantes e harmonizam muito bem com uma infinidade de pratos. Experimente uma clássica witbier belga como a Hoegaarden ou quando no Rio de Janeiro a Jeffrey Niña produzida com casca de limão siciliano.

Pale Ale: estilo típico inglês é também o mais popular entre os estilos de cerveja da Inglaterra. Pale refere-se a sua coloração – pálida, clara – e Ale por ser uma cerveja fermentada a temperaturas mais altas. Possui coloração que vai do dourado intenso/escuro ao cobre, aroma e sabor frutado e intensidade de malte mediana. A diferença entre as APAs (American Pale Ale) e as English Pale Ale, é o caráter do lúpulos, terroso e herbáceo nas inglesas e, em geral, cítrico nas americanas. Experimente as importadas que traduzem bem o estilo: Coopers Original Pale Ale (Inglaterra) e Sierra Nevada Pale Ale (Estados Unidos). Experimente também as nacionais American Pale Ale da Way Beer de Curitiba e a sazonal EPA FrangÓ da Cervejaria Nacional, de São Paulo.

India Pale Ale – IPA: amadas e odiadas pelo seu amargor esse estilo vêm conquistando cada vez mais adeptos. Originariamente produzidas na Inglaterra ficaram mais conhecidas por serem exportadas para Índia. A versão mais divulgada da história conta que foi adicionado uma carga especial de malte e lúpulo para que as cervejas pudessem resistir a viagem à Índia. A característica clássica desse estilo é sem dúvida o amargor. As versões inglesas e americanas se diferenciam na característica do lúpulo utilizado e comumente as americanas são mais amargas. Existem versões que mesclam ambos os lúpulos, mas aqui vale a mesma característica das Pales Ales (American IPA, English IPA). Caso seu lema seja “de doce já basta a vida”, não deixe de provar Sculpin da americana Ballast Point e a Green Cow IPA da Cervejaria Seasons de Porto Alegre.

Stout: está entre as cervejas mais escuras do espectro de cor da cerveja. A cor deriva da utilização de cevada e malte torrado ou outros grãos tostados. A utilização de grãos torrados na receita produz notas de café e chocolate amargo que são características do estilo. O estilo surgiu na Inglaterra como evolução de outro estilo inglês, a Porter. Nem todas Stouts são negras, a coloração varia entre marrom escuro a preto. Muitas pessoas associam cervejas escuras com alto teor alcóolico apesar de a Stout mais famosa do mundo – a Guinness – ter apenas 4% de ABV. As stouts são subdividas em algumas categorias, as mais comuns são: Irish Dry Stout (estilo da Guiness), Oatmeal Stout feita com aveia, Sweet Stout, versões mais adocicadas e algumas com adição de lactose e Imperial Stout, mais robustas e com teor alcóolico superior a 7% de ABV. Experimente comparar duas receitas da mesma cerveja produzidas por diferentes cervejarias: a DUM Petroleum produzida em Curitiba pela cervejaria DUM e a Wäls Petroleum produzida em Belo Horizonte pela Cervejaria Wäls.

GuinnessGuinness Vintage Poster – Fonte: http://www.postersplease.com

Fruit Beer: cervejas feitas com frutas existem desde o início da própria história da cerveja. Hoje temos versões ales ou lagers, de cores variadas cuja característica principal é replicar a complexidade da fruta escolhida, tanto quanto possível. Há também as Fruit Lambics, cervejas belgas que começaram a ser produzidas comercialmente somente nos anos 30. São geralmente conhecidas pelo nome da fruta utilizada e as mais comuns são as Framboise (framboesa) e Kriek (cereja). A cor, sabor e aroma da cerveja irá refletir a fruta utilizada. A grande diferença da Fruit Lambic belga é a acidez, que deve ser presente. Elas podem ter final seco ou levemente adocicado. Aromas da levedura selvagem Brettanomyces (couro, cavalo, laranja mofada, etc) pode estar presente nesse estilo de forma moderada. Podemos encontrar uma grande variedade de rótulos da cervejaria belga Lindemans com exemplares mais delicados e exemplares onde a Brettanomyces é mais pungente como na Kriek da Brasserie Cantillon. A Amazon Beer, de Belém, possui um rótulo dedicado, a Forest Bacuri, uma fruta exótica nativa da Amazônia.

Agora que você já conhece alguns mais informações sobre características e estilos de cerveja só falta uma coisa: botecar!

Priscilla Colares

Sommelière e Mestre em Estilos de Cerveja

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Fonte da foto destaque: http://bit.ly/1LFtBWJ

Entenda melhor os rótulos de cerveja – Parte 1

Se você gosta de cerveja provavelmente já comprou alguma pela beleza do rótulo. A gente se deixa encantar pela estratégia de marketing, mas, além de ser um chamariz, o rótulo também deve, obrigatoriamente, conter algumas informações fundamentais para entender o produto.

Para aqueles que estão começando a se aventurar na fascinante variedade e diversidade do mundo da cerveja, uma ida em algum empório especializado pode ser gerar um mar de dúvidas. Entender sobre estilos e outras características da bebida não é das tarefas mais fáceis, mas está longe de ser ciência de foguete. O importante é ter um ponto de partida para se ter boas experiências.

Como todo produto, quanto mais conhecemos suas características mais podemos absorver suas nuances e aproveitar a experiência como um todo. Para auxiliar nessa jornada vamos dividir esse texto em dois: informações obrigatórias que todo rótulo de cerveja deve conter, características comuns que podem auxiliar na hora da escolha da sua cerveja e no próximo texto um apanhado sobre os estilos mais consumidos.

Informações obrigatórias:

No Brasil a entidade que registra e fiscaliza a produção de cerveja é o MAPA (Ministério da Agricultura e Pecuária e Abastecimento). Além de assegurar que o produto é próprio para consumos algumas informações obrigatórias nos rótulos garantem a rastreabilidade e melhor entendimento do produto. As mais importantes são:

  • Teor alcoólico: ABV é a abreviação de Alcohol by Volume, ou álcool por volume. É o número de ml de álcool etílico presente em cada 100ml de bebida alcóolica quando medido a 20ºC e é expressada em percentagem por volume total. O MAPA divide a classificação alcoólica em três: fraca, forte e extra. Observar o teor alcoólico vai te ajudar não só a consumir quantidades mais moderadas, mas também dizer um pouco sobre a temperatura de serviço da bebida. A regra é simples, quanto maior o teor alcoólico menos gelada se deve beber a cerveja. Por exemplo, uma cerveja de 11% de ABV a 8ºC. Estupidamente gelado é algo para quem não quer sentir nem sabor nem aroma.
  • Composição: todos os ingredientes utilizados na receita, inclusive os quatro básicos – malte de cevada, água, lúpulo e levedura – devem ser informados no rótulo. Algumas receitas levam outros tipos de grãos (trigo, aveia, centeio, etc), frutas, especiarias, chocolate, mel e uma infinidade de outros ingredientes. A proibição de se produzir no Brasil cervejas com produtos de origem animal, como mel e leite, está com os dias contatos. Acredita-se que para o início de 2016 todas as sanções burocráticas já estejam resolvidas e logo logo veremos nas prateleiras os reflexos dessa mudança. Cervejas importadas, desde que permitido em seu país de origem, podem conter esses ingredientes.
  • Cor: existem duas escalas para se medir a cor na cerveja, a europeia (EBC – European Brewery Convention) e a americana (SRM – Standard Reference Method). Ambas possuem numerações para classificar a cor que vai de amarelo palha a preto. O MAPA classifica em duas categorias: clara, para cervejas com até 20 EBC e escura para cervejas com mais de 20 EBC. Como essa é uma informação obrigatória os fabricantes ficam reféns da legislação. O fator mais impactante na cor da cerveja é o malte, ou o seu grau de tosta. Quanto mais torrado o grão mais escura ficará a cerveja. Alguns outros ingredientes como açúcares e frutas (muito utilizados em cervejas de estilo Belga), e reações químicas também contribuem para a cor da cerveja. Muitas pessoas tendem a acreditar que cervejas escuras são mais alcoólicas, porém não existe qualquer tipo de relação entre a cor da cerveja e seu teor alcóolico.

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  • Fabricante: além do nome da marca e do produto, todo rótulo precisa ter o local onde foi fabricado. Procure beber cervejas produzidas perto de você. Ao beber cervejas locais você apoia a produção na sua região, paga menos pelo produto (em geral) e contribui com menos geração de poluição. Cerveja é uma bebida delicada e, caso o método de transporte não for adequado acarretará em perdas de qualidade na bebida.
  • Validade: cervejas devem ser consumidas frescas e jovens. Quanto mais perto da data de produção melhor será a qualidade da cerveja. O agradável aroma dos lúpulos é um dos primeiros atributos a esvanecer e com o tempo a oxidação de outros compostos pode gerar aromas e sabores não muito agradáveis. Tudo o que ninguém quer, mais uma razão para procurar cervejas locais, a garantia de frescor é maior. Há também alguns estilos de cerveja que irão se tornar mais complexos e melhorarão com o tempo se claro, conservadas da maneira correta.
  • Registro do produto/produtor no MAPA: são as siglas do estado onde o produto é registrado mais o número do registro. Cervejas sem esta identificação estão sendo comercializadas irregularmente, muitas vezes sem o pagamento de impostos, o que além de ilegal é imoral. Que o imposto na cerveja é absurdo já sabemos, mas não isenta o seu pagamento. Além de enfraquecer o movimento da cerveja artesanal é uma competição injusta com aqueles que estão em dia com seus tributos. O seu amigo que faz cervejas em casa está isento desse registro e também impedido de comercializar o produto. Regras do mercado.

Bom, já falamos sobre algumas características obrigatórias, agora vamos para outras definições comumente encontradas:

  • Session: basicamente significa um estilo especifico revisitado com teor alcoólico mais baixo. Tendência forte no mercado internacional (resgatada da história cervejeira inglesa), já conta com uma boa variedade de rótulos no Brasil. Ainda não há definições claras, mas em geral possuem teor alcoólico abaixo de 4,5% ABV.
  • Imperial: quando uma cerveja possui a denominação Imperial antes do estilo significa que ela é mais encorpada ou amarga ou alcoólica ou tudo junto! Amarga se aplica apenas para alguns estilos onde a lupulagem da cerveja já é mais presente, embora não seja uma regra. De uma forma geral as cervejas com a designação “Imperial” possuem maior teor alcoólico.
  • Double: não necessariamente o dobro de uma medida mas também significa que é uma versão mais carregada em algum elemento, seja o malte ou lúpulo.

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  • American/English: isso não significa, necessariamente, o local de produção e sim questões relativas ao terroir. Sim, também temos terroir na cerveja, por mais que alguns debatam a respeito. No caso das APAs (ou American Pale Ales) isso significa que os lúpulos utilizados são americanos que, em geral, são mais cítricos e resinosos que os de outras regiões. Isso também se aplica para o termo English, que no caso dos lúpulos tem características mais terrosas.
  • IBU é a sigla para International Biterness Unit ou, Unidade Internacional de Amargor. É a escala de amargor da cerveja. Quanto maior o IBU mais lupulada (ou amarga) é a cerveja.
  • Ales e Lagers: são famílias de espécies de leveduras. Lagers são tipos de cervejas produzidas utilizando leveduras que fermentam em baixas temperaturas (5 a 12ºC). Em geral Lagers possuem menos complexidade no aroma, são mais refrescantes e com sabores mais suaves. Ales são tipos de cerveja produzidas utilizando leveduras que fermentam em temperaturas mais elevadas (14 a 25ºC). Em geral possuem características de sabor e aroma mais complexas.
  • Dry Hopping: é a técnica de infusão a frio que intensifica os aromas do lúpulo na cerveja sem deixá-la mais amarga. O procedimento europeu, popularizado nos Estados Unidos é muito utilizado aqui no Brasil. Geralmente o Dry Hopping é feito de uma única variedade de lúpulo, embora outros possam ter sido utilizados para conferir amargor à cerveja.
  • Single Hop: as cervejas single hop utilizam apenas uma única variedade de lúpulo (hop) para amargor e aroma. O interessante dessa técnica é poder sentir as características singulares daquela variedade na cerveja. A exemplo dos lúpulos Simcoe e Amarillo cujas características aromáticas se assemelham a maracujá.

É sempre bom ler o rótulo para buscar mais informações sobre a cerveja. Alguns fabricantes são bem caprichosos e adicionam várias informações sobre o produto e outras informações como temperatura e copo ideal para o serviço, que tipos de comidas harmonizam com a cerveja além de algumas histórias sobre aquele rótulo em particular. Outros rótulos são mais divertidos e descolados e brincam com as características da cerveja de forma criativa.

Sempre busco pesquisar um pouco sobre a cerveja que estou bebendo, onde foi produzida, se usa algum tipo de ingrediente ou técnica diferente, se tem alguma história por trás do rótulo, como surgiu o nome… acho essa parte tão divertida quanto a própria cerveja. E você, tem alguma história divertida ou um rótulo favorito de cerveja?

Priscilla Colares

Sommelière e Mestre em Estilos de Cerveja

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Coluna da Pri Colares – Do que é feita sua cerveja?

No post passado falamos sobre algumas definições de cerveja artesanal, agora vamos discorrer sobre os ingredientes usados no processo de fabricação da diva do fim de semana, e não estamos falando de mim ou de você… o assunto aqui é sempre a cerveja!

 

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São quatro os ingredientes básicos: água, malte, lúpulo e levedura. Apenas desses quatro ingredientes já se é possível fazer uma infinidade de combinações para se criar diversos estilos de cerveja. Saiba a importância desses insumos na sua cerveja.

A ÁGUA é o ingrediente mais utilizado no processo de produção da cerveja. Cerca de 85 a 95% da cerveja é água e suas características minerais influenciam diretamente no sabor da cerveja. Estima-se que para cada litro de cerveja produzido é necessário um mínimo de 5 litros de água.

Um grande mito ainda repetido nas mesas de bares envolve a procedência da água. Lembra daquela história da cerveja ser melhor por causa das fontes cristalinas? Desde aproximadamente 1900 que este mito deixou de ser verdade. Toda água utilizada na produção de cerveja passa por análises e ajustes químicos e é possível reproduzir perfil mineral da água de qualquer cidade, até mesmo em casa. Este ajuste é necessário não só para a padronização da bebida, mas também porque determinados estilos de cerveja exigem perfis diferentes de água.

Como vimos anteriormente, para se chamar cerveja, no Brasil, o produto deve ter um mínimo de 55% de MALTE de cevada. A cevada é o cereal mais indicado pelo seu alto teor de amido, presença de casca (que facilita o processo) e ter mais de uma colheita ao ano, além da facilidade de se maltar comparada com outros grãos. O processo de malteação consiste basicamente em preparar o amido do grão para se extrair dele o açúcar necessário para fermentação além de ativar as enzimas necessárias para a conversão dos açúcares. A diferença entre os tipos de malte de cevada está, basicamente, no tempo e a temperatura de secagem/torrefação que impacta diretamente na cor, aroma e sabor da cerveja.

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Fonte: Link para a Fonte

LÚPULO, uma planta trepadeira cujo cone/flor é utilizado para dar aroma, sabor e amargor à cerveja, ou seja uma espécie de tempero. Também atende pelo nome científico de Humulus lupulus e possui propriedades bacteriostáticas, agindo como conservante natural da bebida. Cresce apenas em locais com climas frios e abundância de luz solar. Aqui no Brasil alguns cervejeiros já tentaram cultivar a planta porém todo lúpulo utilizado na produção de cerveja nacional é importado. Existem mais de 120 variedades diferentes e cada uma possui características próprias de aroma e sabor. Converse com pessoas um tanto quanto enamoradas com cerveja e descobrirá qual variedade lhes agrada mais. A minha preferida é uma variedade japonesa chamada de Sorachi Ace que tem um sabor exótico de limão siciliano e endro. Bateu uma curiosidade? Experimente o rótulo de mesmo nome da Brooklyn Brewery e comprove.

O fermento ou LEVEDURA é a verdadeira alma da cerveja. Como diz Randy Mosher em seu livro Tasting Beer “cervejeiros não fazem cerveja, fazem mosto. A levedura é quem faz a cerveja”. É esse fungo microscópico o responsável por metabolizar açúcar em álcool, gás carbônico e outros componentes químicos que darão aroma e sabor a cerveja. Aquele aroma que lembra cravo e banana na cerveja de trigo alemã Weiss é produto das leveduras.

Yeast cells (SEM)

Fonte: http://www.eyeofscience.de

Existem duas famílias de leveduras mais utilizadas na cerveja: as leveduras Ales ou Saccharomyces Cerevisiae e as leveduras Lager, Saccharomyces pastorianus (também chamadas de S. uvarum). A diferença entre as duas é a temperatura de fermentação. As leveduras ales utilizam processos fermentativos em temperaturas mais altas, entre 15 e 25ºC, produzindo ésteres (aromas frutados) e fenóis (aromas associados a especiarias). Já as lagers entre 9 a 15ºC, e têm características sensoriais mais “limpas”, dando ênfase aos ingredientes utilizados, como malte e lúpulo.

Há também as leveduras selvagens como a Brettanomyces bruxellensis que geram características um tanto quanto diferentes na cerveja e estão relacionados com aromas de couro, celeiro, lã molhada, laranja mofada e outros relativamente esquisitos. Mas não torça o nariz, incialmente pode não ser o que você deseja encontrar em uma cerveja mas estamos falando sempre em experimentação e criatividade e é nessas categorias que cervejas com essas leveduras permeiam.

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Além dos quatro ingredientes básicos acima citados é comum encontrar uma série de outros elementos na cerveja. Muitos ingredientes são utilizados para agregar sabor, aroma e cor com objetivo de torná-las mais complexas ou mesmo para atribuir características únicas à cerveja. As cervejas belgas são famosas, há anos, por utilizarem uma infinidade de ingredientes como açúcares, condimentos e frutas. Hoje no Brasil temos cervejarias como a Cervejaria Colorado, de Ribeirão Preto, que utiliza um ingrediente brasileiro em cada uma de suas receitas dando toque de brasilidade e originalidade às suas receitas. A cerveja Appia, uma das mais vendidas da cervejaria é feita com mel de laranjeira mas há também outros rótulos feitos com rapadura, café, laranja e castanha do Pará. Não só a Colorado, mas muitas outras microcervejarias nacionais estão buscando na fartura de frutas, ervas e temperos brasileiros inspiração para criação de receitais pra lá de originais.

Além dos ingredientes citados algumas cervejarias utilizam barris de madeiras para que as características da madeira ou de produtos já maturados previamente nestes barris possam “emprestar” seus aromas e sabores à cerveja. Tanto a cervejaria mineira Backer quanto a curitibana Way Beer possuem maravilhosas receitas feitas com umburana e o melhor de tudo é que ambas as cervejas possuem um preço acessível.

Em síntese, todas as boas cervejas têm uma grande preocupação com a escolha e qualidade dos ingredientes, afinal de contas, como toda boa receita, a escolha dos insumos utilizados é crucial. E é por isso que as cervejas artesanais se diferenciam tanto das cervejas mainstream, a busca por uma revolução de sensações é parte do lema “Beba menos, beba melhor”.

Como você pode perceber estamos falando de uma análise combinatória infinita. Cada ingrediente, proporção, temperatura, e técnica gera sabores diferentes, para nossa alegria e eterna felicidade. Partiu boteco testar na prática essas combinações?

Saúde!

Priscilla Colares

Sommelière e Mestre em Estilos de Cerveja

www.pricolares.com.br – Insta @pricolares_

Fonte: Divulgação (www.cervejariacolorado.com.br)