Areia, paraíso da cachaça no Brejo Paraibano

Com quantas cachaças se faz a Paraíba? Com exatidão é difícil dizer, mas acredite, boa parte delas é produzida no Brejo Paraibano, nas proximidades de Areia, pequena cidade a 130 km de João Pessoa. As ruas de paralelepípedo do centro e as casas em estilo colonial – muitas ainda originais – mostram uma Areia do século 19, em que 250 engenhos eram movidos a boi, e onde era produzido quase todo o açúcar necessário para o abastecimento do sertão paraibano. E, sabemos, onde tem açúcar, tem cachaça! Praticamente todo engenho da época produzia também nosso rico destilado. Hoje o número de engenhos diminuiu, é verdade, mas em compensação, ótimas cachaças são produzidas em Areia e arredores – e você pode visitar boa parte dos alambiques!

Rest_Cachac_a_Volu_pia_Giuliana WolfMesmo pequena, Areia não é modesta no quesito estrutura para turismo. Há hotéis e restaurantes para todo tipo de viajante! Isso também porque, além da produção de cachaça, a região é famosa pelo seu “inverno” – durante os meses de julho e agosto as temperaturas variam entre 18º e 25ºC, o que não é exatamente frio, mas um pouco menos quente que a mínima de 21ºC e máxima de 29º para o mesmo período em João Pessoa. Além disso, a altitude da cidade contribui para o clima mais ameno. Para se hospedar, vale ficar na cidade, que tem hotéis de respeito, como o da Cachaça Triunfo, e pousadas menores, ou ficar em Campinas Grande, que disputa com Caruaru (PE) o título de Capital do Forró!

Hoje, cerca de 30 engenhos se espalham por Areia e redondezas, produzindo cachaça de qualidade. Quem não gosta de cachaça (Quem são eles? Onde vivem? O que comem?), mesmo assim, pode visitar sem medo e incluir o brejo paraibano em uma viagem pelo Nordeste. Vários dos alambiques têm uma estrutura pensada para quem não consome a bebida, e oferecem boa comida, belas paisagens, um dedo de conversa e até mesmo trilhas ecológicas, como no Engenho Lagoa Verde, onde é produzida a Cachaça Volúpia.

A Volúpia é uma das cachaças mais antigas da região, fabricada desde 1946. A fazenda onde ela é produzida pertence à família Lemos desde 1817, data em que o tataravô de Vicente Lemos chegou à região. O mosaico que se vê logo na entrada da fazenda não mente: esse lugar tem história…

Mural_Volu_pia

Na visita que fizemos, o Vicente contou que durante a década de 1950, na época de seu avô, o engenho produzia açúcar, rapadura e cachaça. Quando ele assumiu a produção, no entanto, decidiu investir apenas na cachaça, pois já há algum tempo a rapadura feita artesanalmente não conseguia competir em preço com a rapadura feita pelas usinas. Em contrapartida, o alambique segue firme produzindo uma das cachaças mais premiadas do país: a prata, armazenada por 1 ano em tonéis de freijó, madeira em que 98% dos produtores do Nordeste armazenam suas cachaças, e a ouro, envelhecida por 4 anos em tonéis de carvalho europeu. Essa última é quase uma raridade no Nordeste inteiro, pois existe uma cultura muito forte na região de se produzir apenas cachaça branca – o público goxxxta muito e os produtores têm a tradição!

E tradição é algo que o brejo paraibano tem de sobra, o que se reflete na produção da caninha. Visitando vários alambiques, dá para perceber algumas características em comum: a fermentação (que na região é conhecida como natural) é feita a partir da levedura da própria cana-de-açúcar e, em alguns casos, leva até 8 dias para ficar pronta. Depois, as cachaças são destiladas em alambiques de cobre e descansadas em pipas de freijó que variam de 10 a 15 mil litros. Esse tempo em contato com a madeira deixa a cachaça branca redondinha e quase não dá sabor perceptível. Conhecer essas etapas de perto (ou só tomar direto do produtor, como falei nesse texto aqui) é algo que, com certeza, vale a pena!

Para visitar:
Produção das cachaças Volúpia, Turmalina da Serra, Triunfo, Bruxaxá, Rainha Paraibana (que não é cachaça, é uma aguardente, mas por ser um clássico das destilarias paraibanas, vale a visita!), entre várias outras que você, assim como eu, descobrirá pelo caminho!

Uma vez por ano acontece também o Bregareia, Festival Brasileiro da Cachaça e Rapadura – o nome já diz tudo: brega, cachaça e rapadura! Se for, se programe pois a cidade fica lotada durante essa época.

Passe pelo Museu do Pedro Américo, pintor que nasceu e foi criado em Areia. Não sabe quem é? Vou refrescar sua memória:

ipirangaO quadro “O Grito do Ipiranga” é uma de suas pinturas mais famosas (foto: Divulgação do MP-USP)

E para quem quiser mais sobre cachaça, conhecer o Museu do Brejo Paraibano, que fica dentro da Universidade Federal de Areia. Além de uma coleção de cachaças beeeem legal e uma casa-modelo de como eram as habitações antigamente, tem um engenho com os utensílios usados durante o século 19 para produção de rapadura, açúcar e cachaça, como tacho, alambique, barris e até o engenho movido a boi, como esse aqui abaixo:

Museu_Universidade_Federal_Areia_Giuliana WolfEngenho movido a boi: um dos maiores e mais antigos do Brasil!

Não deixe de provar:
O bode guisado do Restaurante Banguê, do Engenho Alagoa Verde, acompanhado de uma cachacinha (lá eles têm todas as cachaças geladas, além de em temperatura ambiente, para quem gosta dela fresquinha), arrumadinho e os peixes do Restaurante Azul Histórico, do Hotel Fazenda Triunfo – nos dois, você vai ter uma vista de perder o ar!

Restaurante_Azul_Histo_rico_Areia_PBRestaurante Azul Histórico, que fica dentro do Hotel Fazenda Triunfo, uma delícia!

Ah, e tome uma por mim quando for! Se você gostou desse destino cachaceiro, veja também os posts sobre as cidades de Salinas (MG), Harmonia (RS) e Amparo (SP). Tem uma dica de destino? Me conte aqui nos comentários!

Um brinde!

Giuliana Wolf

Jornalista e fundadora do Quintal da Cachaça, o primeiro clube de assinatura de cachaça do país!

@giulianaawolf

Amparo, em São Paulo, é a terra da cachaça e do café!

Daquelas coisas que a gente nunca realmente repara no dia a dia: quanta coisa bacana tem na nossa própria cidade! A região de Campinas (SP) foi uma das grandes cafeicultoras do século 19, e a gente ainda identifica antigas construções (muitas negligenciadas, é fato) dessa época por aqui. Mas isso não é privilégio só da Cidade das Andorinhas. Outros municípios ao redor também têm boas histórias que vieram do ciclo do café na região, como Amparo, cidade que está a 70 km de Campinas e a 132 km de São Paulo.

Masss como essa é uma coluna sobre destinos cachaceiros, e não destinos cafeicultores, explico: a história de Amparo com a cachaça começou também por causa do café. Até 1929, quando a Bolsa de Nova York quebrou, os Estados Unidos eram o destino da maior parte da produção de café brasileiro. Com a quebra da bolsa, as exportações diminuíram drasticamente. Para tentar equilibrar a economia e se baseando na lei da oferta e procura, Getúlio Vargas mandou que os produtores de café do país todo queimassem seus plantios, limitando, dessa forma, a oferta do grão.

Fazenda_Benedetti

Nessa época, Amparo tinha fazendas de café, que produziam, além do grão, outros produtos do campo, como leite e derivados da cana-de-açúcar. Uma dessas fazendas era a dos Benedetti, família italiana que havia chegado ao Brasil no final do século 19 para trabalhar na lavoura. A Crise de 1929, no entanto, faria com que Antônio Benedetti, o patriarca da família, aumentasse o plantio da cana-de-açúcar em sua propriedade, assim como outros fazendeiros da cidade. Mas a cachaça entraria nessa história por acaso: sem ter dinheiro para quitar uma dívida, um de seus clientes deu como pagamento um engenho, que deu origem à produção de açúcar e, claro, à cachaça dos Benedetti!

Já gosto quando encontro cachaças que, de alguma maneira, se relacionam com a história da cidade ou região em que estão. Esse também é um jeito de preservar a cultura local. E foi justamente isso o que a Fazenda Benedetti fez. Dizem que vista do alto, Amparo tem o formato de uma flor, por ser envolta por muitas montanhas, daí o primeiro nome que o município teve: Flor da Montanha! Em homenagem à cidade, a família Benedetti deu a sua primeira cachaça o nome de Flor da Montanha! O alambique fica na estrada que vai para Serra Negra, e posso falar? Enquanto você passa pelo caminho é quase impossível ficar alheio à paisagem. Não é à toa que muita rota de motociclista passa por ali! Quanta coisa bonita tem em volta!

Embutidos_Benedetti

Ah, e ali você pode provar tudo direto da fonte! O lugar não tem “só” a cachaça, não. Tem café, mel, embutidos, linguiças, queijos, sabonete de cachaça (!) e inaugurou recentemente um café colonial, que funciona aos finais de semana e oferece aos visitantes bolos caseiros, bolachinhas e aquele cafezinho passado na hora. Além disso, eles têm cachaças armazenadas em bálsamo, amburana, carvalho e amendoim. Olha, não existe algo oficial sobre isso, mas o tonel de amendoim que eles têm lá deve ser um dos maiores do estado, se não do Brasil! Enfim, recomendo muito a visita ao lugar, a italianada lá é tutto buona gente!

Colagem-Benedetti

É a quarta geração da família quem está a frente da fazenda e eles têm criado muita coisa bacana por lá! Existe até o plano de transformar toda a fazenda em um museu, já que eles conseguiram manter muita coisa preservada. Recentemente eles lançaram novos rótulos para a marca Flor da Montanha e lançaram uma nova marca, a Gran Nonno. Não é à toa que eles foram nossos parceiros no Quintal da Cachaça para a criação do nosso blend comemorativo de um ano!

Cafe__Benedetti_2

Além da Fazenda Benedetti, Amparo reúne cerca de 15 produtores da bendita, que ficam em fazendas que, tal qual o centrinho antigo da cidade, ainda preservam belos casarões do ciclo do café. Infelizmente, poucos deles têm registro no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). No entanto, também no Circuito das Águas, Serra Negra tem um belo alambique que vale a visita. Se trata da HOF Microdestilaria, onde são produzidos cachaças, licores e aguardentes compostas.

Fazenda Benedetti
Circuito das Águas – Rodovia Amparo/Serra Negra
SP-360, KM 138
Bairro dos Almeidas, Amparo.
Coordenadas para o GPS: -22.680674,-46.731838

Se você gostou desse destino cachaceiro, não deixe de ler os outros posts sobre as cidades de Salinas e Harmonia. Tem uma dica de destino? Conta para mim aqui nos comentários!

Um brinde!

Giuliana Wolf

Jornalista e Fundadora do Quintal da Cachaça, o primeiro clube de assinatura de cachaça do país!

@giulianaawolf

Um clássico mineiro: Salinas!

Sim, o Brasil é enorme e em praticamente todo ele se produz cachaça. Mas, inevitavelmente, há uma cidade e um estado que todo mundo relaciona à cachaça: Salinas, em Minas Gerais! Se hoje falar da bendita é quase já falar do “pedacim mais querido do Brasil”, não é por acaso, tem muita história envolvida!

A região de Salinas começou a desenvolver a produção de cachaça quando fazendeiros baianos desceram para essa parte de Minas Gerais – o mais famoso deles é Balduíno Afonso, que chegou na cidade entre 1880 e 1890. Assim como outros, ele trouxe a cana-de-açúcar para o plantio e também escravos, que já transformavam a cana em um tudo: alimentação do gado, “doce” para as crianças, em caldo e, principalmente, faziam a partir dela melado, rapadura e cachaça, tudo para consumo próprio da família e amigos.

Aqueles fazendeiros que, com o tempo, começaram a se destacar pela cachaça que produziam, passaram a vendê-la. A renda complementava o que era arrecadado com a pecuária, atividade que predominava na região. Os principais fregueses eram os tropeiros, que se abasteciam da cachaça e a vendiam nas próximas paradas.

Na década de 1940 e 1950, marcas como Piragibana, Havana e Indaiazinha surgiram, movimentando o mercado pela qualidade e, no casa da Havana, dificuldade de se conseguir um exemplar da bebida. Com o sucesso delas, muitas outras marcas começaram a surgir, tornando Salinas referência, graças ao imenso volume de cachaça produzido na região.

Museu da Cachaça_Salinas_2

Parte do acervo do Museu de Cachaça de Salinas.

Apesar da fama, Salinas é uma cidadezinha pequena, meio que parada no tempo. Quando você chega, se não estiver atento, quase não se dá conta que já está lá! Hehe… Como não existe também sinalização para os alambiques, ou alguma informação mais direta, caso você vá com o intuito de visitar os produtores e ver a cachaça sendo produzida, recomendo que entre em contato com a Associação dos Produtores Artesanais de Cachaça de Salinas (APACS), que reúne produtores e pode facilitar essa comunicação – ela foi essencial durante a nossa viagem! No centro da cidade fica a lojinha da associação, com cachaças de todos os produtores que participam dela.

APACS
Avenida João Pena Sobrinho, 345 – Alvorada – Salinas/MG
Tel: (38) 3841-3431 – contato@apacs.com.br

Hoje há cerca de 30 produtores de cachaça registrados no MAPA (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) em Salinas e arredores. Aliás, a maior parte dos alambiques fica, na realidade, nas cidades em volta do município, como Taioberas, Fruta de Leite e Nova Matrona. Dizem, inclusive, que o solo de Taioberas tem propriedades tais que o tornam um dos mais férteis do Brasil!

Quem vive da produção de cachaça não esconde a preferência pelo envelhecimento em bálsamo, uma tradição de longa data na cidade! Se prepare para encontrar cachaças envelhecidas por 3, 6 e até 12 anos! Desafio por aqui é encontrar uma cachaça branca, mas por um lado, é bem legal o exercício de comparar várias cachaças que passaram pelo mesmo tipo de madeira. Aos poucos, você vê as diferenças de uma para outra, ainda que tenham sido envelhecidas em bálsamo. É impressionante como o processo de produção e o tempo de armazenamento influenciam no sabor da bebida!

 

O Museu da Cachaça

Salinas tem um baita museu da cachaça, com um conteúdo muito legal sobre a produção de cachaça da região. Ali há itens que eram usados antigamente nos engenhos, material audiovisual com entrevistas com “celebridades” da cachaça salinense e, o mais impressionante, uma sala bem interessante com muuuuitas cachaças, toda feita de vidro.

Museu da Cachaça_Salinas

Quando fui para Salinas, em março de 2015, o museu estava funcionando parcialmente pela troca de gestão de governo, que ainda não tinha dado conta da contratação de todo o pessoal para trabalhar lá. Ainda assim, há um ou dois funcionários sempre por lá, que abrem o museu para quem quiser visitar, basta dar uma ligadinha um dia antes para combinar o horário da visita, que é grátis!

Engenho tocado a boi

Museu da Cachaça de Salinas
Av. Antônio Carlos, 1.250, Salinas/MG
(38) 3841-4778

Como chegar

Salinas está no norte de Minas Gerais, já quase na Bahia – são cerca de 130 km de distância até a cidade baiana mais próxima, e 350 km até Vitória da Conquista. Se for de avião, o aeroporto mais próximo fica em Montes Claros (MG), distante cerca de 250 km. O caminho de lá até a Salinas é uma linha reta pela BR-251, que requer muito cuidado e cautela, o que significa dirigir no acostamento, se possível. Por essa estrada há uma grande circulação de caminhões e, como ela não é duplicada, vez ou outra você precisa disputar espaço com quem vem na contra mão fazendo uma ultrapassagem. Dito isso, aproveite a paisagem do Vale do Jequitinhonha! Quando fui, o pessoal da região dizia que tudo estava muito seco, mas mesmo assim, achei bem bonito e diferente da vegetação que se vê em São Paulo.

Salinas_estrada_BR

Trecho da BR-251

 

Onde ficar

Acredito que com exceção da época em que acontece o Festival Mundial da Cachaça de Salinas – que esse ano será nos dias 6, 7 e 8 de setembro – no restante do ano Salinas tem bastante lugar para hospedagem. Antes de ir, não encontrei muitos hotéis online, com exceção do Gran Norte Hotel, que foi onde me hospedei e achei muito bom! Então recomendo o próprio:

Gran Norte Hotel
Rua Sebastião Moreira de Oliveira, 199 – Salinas/MG

Se Salinas é tão famosa, é de se admitir que muitos famosos também tenham passado por lá! Um dos mais célebres foi Jânio Quadros, que havia ido à região pela inauguração de uma usina em Grão Mogol. Na festa que celebrava a inauguração, só tinha bebida importada e nada de cachaça. Sabendo bem em que terra estava, pediu logo que buscassem uma legítima cachaça de Salinas! Uma de suas frases ainda é repetida nos botequins da cidade:

“Bebo porque é liquido. Se fosse sólido comê-lo-ia”

E você, para onde está planejando sua próxima viagem cachaceira? Me conte aqui nos comentários!

Um brinde e boa viagem!

Giuliana Wolf

Jornalista e Fundadora do Quintal da Cachaça, o primeiro clube de assinatura de cachaça do país!

@giulianaawolf

 

Coluna da Giuliana Wolf – Harmonia, destino cachaceiro no Rio Grande do Sul

Na mesa do bar, enquanto você toma uma cervejinha, acompanhada de uma boa cachaça artesanal surgem mil assuntos: trabalho, viagens, sonhos, amor. E em meio à vastidão de papos que rolam nesse ambiente democrático que é o boteco, alguém te dá uma dica de balada, de restaurante, de música… Por isso que eu, encarando essa coluna (tô inaugurando, oba!) como a nossa mesa de bar, vou dividir minhas dicas de destinos cachaceiros por esse Brasilzão!

Mas, antes disso, por que mesmo seria legal fazer um roteiro para conhecer alambiques, ou passar o dia em um?

Claro que tem a parte de você provar a cachaça diretamente onde ela é feita, mas, acredite, por mais que você já tenha tomado e gostado (ou não) de uma cachaça, se visitar o alambique e provar de novo a mesma cachaça, sua impressão vai mudar. Falo isso por duas razões: a primeira é porque, em geral, as garrafas de 670ml não acabam de uma vez só (ah, na sua casa acabam??? Oba!!!). E quando a garrafa fica na prateleira por mais tempo depois de aberta, pode ser que a tampa dela não vede tão bem a passagem de ar, o que faz com que a cachaça oxide e o sabor da bebida vá mudando ao longo do tempo – daí para provar essa mesma cachaça lá no alambique, do jeitinho que o produtor pensou nela, são outros quinhentos. A segunda razão é porque comer e beber não é uma ciência exata, então não são apenas os ingredientes que interferem no sabor que a gente vai se lembrar depois, mas as pessoas que estavam conosco, as conversas durante o bar, a música que tocou. Não tem jeito: vem o pacote todo! Da mesma maneira, conversar com o produtor de uma cachaça, ou ir até o alambique e conhecer a história – porque toda cachaça tem uma história –, ver onde e como a bebida é produzida, muda muito a percepção que você tem sobre aquela cachaça. Bom, comigo pelo menos é assim! E com você?!

Já que a vida é feita de emoções, dá-lhe memórias afetivas com a cachaça.

Para nossa sorte, se produz cachaça artesanal boa e de qualidade de Norte a Sul do Brasil – e nossa primeira parada será Harmonia, no Rio Grande do Sul, onde está o alambique Harmonie Schnaps! A cidade é beemm pequenininha e compõe a “Rota dos Saberes e Sabores”, formada por, além desta última, Bom Princípio, Montenegro e Tupandi. Todas essas cidades ficam no Vale do Caí!

Giu-insta-1Harmonia está a cerca de 70 km de Porto Alegre, então para quem vai passear em terras gaúchas e vai ficar alguns dias pela capital do estado, é super tranquilo chegar até lá. Ela também está a 60 km de Bento Gonçalves e, um pouco mais longe, a 90 km de Gramado. Ou seja, fica perto de vários lugares normalmente mais badalados do Rio Grande do Sul, então rola fazer um passeio de um dia para o lugar! E convenhamos: que estado maravilhoso para pegar a estrada! Desculpa Roberto, mas eu prefiro as curvas das estradas gaúchas – que apesar de serem muitas, acompanhadas de trechos mais sinuosos, seja com sol ou tempo nublado, vão deixando tudo tão bonito e inspirador!

A colonização da cidade, assim como muitas outras do Rio Grande do Sul, foi alemã. O nome do alambique logo deixa isso claro: Cachaçaria Harmonie Schnaps. “Schnaps” é a palavra em alemão usada para falar de qualquer aguardente, e Harmonie, significa harmonia. Então, Cachaça de Harmonia! Uma curiosidade é que no Sudeste, em geral, o lugar físico onde a cachaça é produzida é chamado de alambique; no nordeste, chamam mais de engenho e, no Rio Grande do Sul, percebemos que se chama cachaçaria!

Nós saímos de Novo Hamburgo para chegar até Harmonia, então pegamos a RS-122 e, depois, a RS-124 para entrar em Harmonia. A cidade tem cerca de 5 mil habitantes, então imagine que mesmo sem essas direções, dá para achar o alambique numa boa! A rua principal da cidade é a 25 de julho, por onde você vai seguir até virar à direita na Rua Jacob Finke, andar mais 2 km e, pronto, logo vai ver a placa para a entrada da Harmonie Schnaps à direita!

Placa-Alambique_Harmonie_Schnaps

A entrada da cachaçaria é uma bela alameda, ou, melhor, um portal de árvores, como se você estivesse entrando em um mundo diferente, onde a grama é mais verde e o cuidado com a natureza é a lei central. Pode parecer piada, mas quando entrei, fiquei impressionada de verdade com a cor da grama! O Leandro Hilgert, produtor da Harmonie Schnaps e nosso anfitrião, nos disse que não fui a primeira a perguntar qual era o segredo para a grama ser daquele jeito – e contou que muita gente que vai lá até pergunta se pode pisar, de tão bonita!

Giu-insta-2Na realidade, percebi que tal como a grama, tudo na cachaçaria é feito com muito cuidado. O plantio da cana é orgânico – nenhum agrotóxico é usado no processo –, o bagaço da cana é reutilizado como adubo, para a fermentação é feito o uso de leveduras selecionadas e o controle de temperatura do caldo. É incrível notar o tamanho do cuidado que eles têm com a estrutura da cachaçaria e com a história da região – pudera, os dois largaram seus antigos trabalhos para viver da cachaça! Claro que não foi tão simples: por três anos, o Leandro trabalhou (e construiu!) a cachaçaria sozinho. Depois, foi a Fabi, esposa dele, que resolveu se dedicar integralmente ao alambique. Hoje, os dois tocam o lugar e se revezam na produção, atendimento à visitação e presença em feiras e eventos do universo cachaceiro.

Como resultado, eles produzem três cachaças diferentes e vários tipos de licores, todos feitos com frutas colhidas na propriedade! Aliás, existe uma pequena sala secreta (não diga que eu contei), onde eles guardam objetos antigos da região. É o lugar perfeito para passar uma tarde, bebericando uma cachacinha e ouvindo as histórias dos dois – eles têm uma das mais inspiradoras que já conhecemos aqui no Quintal da Cachaça!

Se depois de provar as cachaças de lá, você ainda estiver no clima para conhecer mais iguarias etílicas da região, não deixe de passar na cervejaria Barley, em Capela de Santana, onde as famílias Schwartz e Sturmer iniciaram a produção caseira de cerveja e chopp conforme fazem as famosas cervejarias da Alemanha, sem aditivos químicos.

Se você resolver ficar bem pertinho dali, e não em outra cidade maior mais distante, em Bom Princípio tem o Hotel Kleinsberg, ótima opção!

Viaje, se encante com esse pedaço do Rio Grande de Sul e leve uma boa cachaça na mala para os amigos!

Um brinde!

Giuliana Wolf

Jornalista e Fundadora do Quintal da Cachaça, o primeiro clube de assinatura de cachaça do país!

@giulianaawolf